Academia Platão & Liceu Aristóteles Parte II

epv0706061918/2212061924

Acesso em: 19:51 18/11/2005

Disponível em:

http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/escola

/academia/index.htm

 

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Ruínas da Academia

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213. Diversos autores

213.1. distinguem

213.2. diferentes períodos

213.3. na história da Academia

213.4. depois de Platão.

214. Sexto Empírico (sec. II – sec. III a.C.)

214.1. enumera cinco momentos

214.2. e, com eles, cinco Academias:

214.3. a primeira fundada por Platão;

214.4. Arcesilau seria o fundador da Segunda,

214.5. Carnéades o da Terceira,

214.6. Fílon e Cármides da Quarta

214.7. e Antíoco da quinta Academia.

215. Outro ponto de vista

215.1. é defendido por Cícero (106 – 43 a.C.)

215.2. que reconhece apenas duas academias:

215.3. a Velha Academia,

215.4. de Platão e de seus seguidores fiéis

215.5. e a Nova Academia,

215.6. que começa com Arcesilau.

216. Por seu lado,

216.1. Diógenes Laércio (sec. III d.C.),

216.2. considera três períodos na vida da instituição:

216.3. a Velha Academia

216.4. iniciada por Platão

216.5. e continuada pelos seguidores

216.6. que ensinaram estritamente

216.7. a doutrina do mestre

216.8. sem qualquer mistura ou corrupção;

216.9. a Média Academia

216.10. abarcando todos aqueles

216.11. que, como Arcesilau,

216.12. com certas inovações

216.13. relativamente ao sistema platónico,

216.14. não o bandonaram completamente;

216.15. a Nova Academia

216.16. que se inicia com Carneiades

216.17. e se caracteriza pelo cepticismo

216.18. dos seus ensinamentos.

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Academia vs Liceu

.Semelhanças

.Diferenças

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.Semelhanças

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217. Tanto a Academia de Platão

217.1. como o Liceu de Aristóteles

217.2. estavam organizadas

217.3. como comunidades

217.3.1. complexas e diversificadas

217.4. e não como um simples grupo composto

217.5. pelo professor e pelos alunos.

218. Tanto na Academia

218.1. como no Liceu

218.2. existiam dois grupos de membros:

218.3. os presbuteroi e os neaniskoi.

219. Ambos eram membros da comunidade

219.1. embora os neaniskoi

219.2. estivessem provavelmente

219.3. mais preocupados com a aprendizagem

219.4. e os presbuteroi

219.5. estivessem mais preocupados

219.6. com o ensino e a pesquisa.

220. Embora se conheçam poucos detalhes

220.1. acerca da distinção entre estes grupos,

220.2. tanto o Liceu como a Academia

220.3. eram comunidades sem hierarquias

220.4. rigidamente definidas.

221. Em ambas as escolas,

221.1. tanto os jovens como os mais velhos

221.2. não estavam sujeitos

221.3. a qualquer obrigação contratual.

222. Uma das formas mais comuns

222.1. pela qual os membros das escolas

222.2. se referiam uns aos outros

222.3. era através da palavra "companheiros",

222.4. deixando transparecer a ideia

222.5. da existência de uma relação informal

222.6. entre membros.

223. Os membros mais velhos

223.1. de ambas as escolas

223.2. sempre puderam optar

223.3. por ir para outro lugar,

223.4. até mesmo para fundarem

223.5. as suas próprias escolas,

223.6. se assim o desejassem.

224. Como exemplo,

224.1. refira-se Eudemos

224.2. que deixou o Liceu no tempo de Teofrasto

224.3. e voltou à sua ilha nativa – Rhodes –

224.4. para ensinar.

225. Existem numerosos exemplos

225.1. de jovens

225.2. que no seu tempo de estudantes

225.3. trocaram uma escola por outra.

226. Bion de Borysthenes,

226.1. por exemplo,

226.2. desgostado do ensino de Crates

226.3. na Academia

226.4. foi para o Liceu

226.5. receber os ensinamentos de Teofrasto.

227. A liberdade de pensamento

227.1. e a independência

227.2. relativamente ao escolarca

227.3. é talvez menor no Liceu

227.4. do que na Academia.

228. Nenhum membro do Liceu

228.1. parece ter sido tão

228.2. intelectualmente independente

228.3. da visão do escolarca

228.4. quanto Eudoxo

228.5. e o próprio Aristóteles

228.6. o foram de Platão.

229. No entanto,

229.1. o homem escolhido para suceder Aristóteles,

229.2. Teofrasto,

229.3. era um pensador independente.

230. De facto,

230.1. num dos fragmentos

230.2. que chegaram até nós,

230.3. Teofrasto mostra claramente

230.4. que seguiu por vezes Aristóteles,

230.5. tendo noutras ocasiões

230.6. rejeitado formulações aristotélicas.

231. O facto de Aristóteles

231.1. ter preferido Teofrasto

231.2. para ser seu sucessor

231.3. em vez de Eudemos

231.4. é a prova de que a sua escola

231.5. não era baseada na ortodoxia.

232. A abertura das escolas

232.1. de Platão e Aristóteles

232.2. em oposição

232.3. ao fechamento da comunidade Pitagórica

232.4. é outra característica comum.

233. Não há referências

233.1. à existência

233.2. de qualquer tipo de juramentos,

233.3. jejuns ou rituais de iniciação

233.4. que pudessem eventualmente

233.5. estar ligados ao Liceu ou à Academia.

234. Ambas eram espaços públicos

234.1. e parte integrante da cidade.

235. Em ambas as escolas

235.1. eram aceitas pessoas

235.2. independentemente da sua raiz familiar.

236. Demetrios,

236.1. o ditador de Atenas

236.2. desde 317 até 307 a.C.

236.3. conseguiu frequentar a escola

236.4. apesar da proveniência familiar.

237. Outros estudantes

237.1. cujas condições familiares

237.2. não lhes permitiriam enveredar

237.3. pelos estudos

237.4. conseguiram fazê-lo

237.5. conciliando a escola com trabalho.

238. Tal como na Academia,

238.1. as portas no Liceu

238.2. não estavam fechadas.

239. Para além da questão financeira

239.1. não existia qualquer barreira

239.2. difícil de ultrapassar.

240. Tanto Platão

240.1. quanto Aristóteles

240.2. nomearam os seus sucessores

240.3. quanto à liderança das suas escolas.

241. Não se sabe ao certo

241.1. se os membros da Academia

241.2. realizaram ou não

241.3. uma eleição

241.4. depois da morte de Platão.

242. Quando Speusipo,

242.1. o sucessor escolhido por Platão

242.2. estava quase a morrer,

242.3. pediu a Xenócrates

242.4. para tomar conta da escola.

243. De facto Xenócrates

243.1. assumiu a liderança da Academia,

243.2. mas tal só aconteceu

243.3. depois da realização de uma eleição

243.4. que ganhou por uma escassa maioria.

244. Também Aristóteles

244.1. – antes da sua morte em Cálcis –

244.2. expressou a sua preferência por Teofrasto

244.3. em detrimento de Eudemos

244.4. e os seus seguidores aceitaram a sua decisão.

245. Uma outra ideia organizacional

245.1. que Aristóteles usou

245.2. à semelhança da Academia

245.3. foi a eleição de um membro

245.4. para o cargo de archon.

246. Esta prática

246.1. foi talvez introduzida

246.2. para que os trabalhos

246.3. de rotina administrativa

246.4. ligados à escola

246.5. fossem partilhados

246.6. pelos varios membros.

247. O uso das eleições

247.1. para a escolha dos líderes

247.2. sugere que

247.3. tanto a Academia como o Liceu

247.4. eram geridos

247.5. por um tipo de democracia partilhada.

248. Foi Xenócrates,

248.1. e não Platão,

248.2. o responsável por esta

248.3. inovação organizacional

248.4. na Academia.

249. Tal como Platão,

249.1. parece que Aristóteles

249.2. não estabeleceu qualquer propina

249.3. relativamente aos seus ensinamentos.

250. Já o sucessor de Platão,

250.1. foi censurado

250.2. por ter introduzido

250.3. encargos relativos

250.4. à educação na Academia.

251. Quanto ao financiamento

251.1. de ambas as escolas

251.2. pouco se sabe.

252. Platão aceitou

252.1. algumas recompensas em dinheiro

252.2. de Dion e Dionísio.

253. Existem também provas

253.1. de que Alexandre o Grande

253.2. daria algum dinheiro

253.3. para a escola de Aristóteles,

253.4. o que constitui

253.5. um dos meios

253.6. de que Aristóteles dispunha

253.7. para levar a cabo

253.8. um trabalho mais elaborado

253.9. a nível da pesquisa.

254. O tipo de trabalho

254.1. efectuado no Liceu

254.2. exigia indubitavelmente

254.3. mais recursos financeiros

254.4. do que as actividades desenvolvidas

254.5. na Academia.

255. Mas,

255.1. e à semelhança de Platão,

255.2. a fortuna familiar

255.3. deve ter sido

255.4. a principal fonte económica de Aristóteles.

256. Uma vez que ele era

256.1. filho de um médico

256.2. pertencente à corte da Macedónia,

256.3. conseguiu auto sustentar-se

256.4. durante os vinte anos

256.5. que passou na Academia,

256.6. o que atesta

256.7. que Aristóteles

256.8. sempre teve

256.9. uma boa posição financeira.

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.Diferenças

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257. As semelhanças

257.1. entre a Academia e o Liceu

257.2. eram profundas.

258. Mas seria injusto concluir

258.1. que estas

258.2. eram instituições idênticas.

259. Durante o tempo

259.1. de permanência

259.2. de Aristóteles na Academia

259.3. eram já visíveis

259.4. as divergências

259.5. entre Aristóteles e Platão.

260. Contudo,

260.1. e apesar do tempo

260.2. que passou na companhia dos académicos,

260.3. Aristóteles sempre se evidenciou

260.4. como um homem intelectualmente independente.

261. Tudo aponta

261.1. para a conclusão

261.2. de que o Liceu

261.3. representa

261.4. uma nova faceta

261.5. da educação de Atenas.

262. Düring

262.1. (citado por Patrick, 1972)

262.2. resumiu muito bem

262.3. as novas e marcantes

262.4. características desta escola:

262.5. "Aristóteles

262.5.1. criou algo de novo

262.5.2. com a sua escola.

262.5.3. Uma recolha sistemática

262.5.4. da literatura previamente produzida,

262.5.5. a qual foi inteiramente trabalhada.

262.5.6. Uma vasta e sistemática recolha

262.5.7. de informação e material

262.5.8. para certos propósitos,

262.5.9. por forma a tornar possível

262.5.10. uma visão geral

262.5.11. sobre todo um campo de conhecimento.

262.5.12. Estreita cooperação

262.5.13. entre o líder da escola

262.5.14. e os seus seguidores.

262.5.15. E, finalmente,

262.5.16. e mais importante que tudo

262.5.17. o uso de um método de trabalho

262.5.18. estritamente científico".

263. Há quem defenda

263.1. que as raízes desse desenvolvimento

263.2. se encontravam já na Academia.

264. No entanto,

264.1. nenhum membro

264.2. da Academia anterior a Aristóteles

264.3. parece ter defendido

264.4. uma classificação sistemática

264.5. dos seres

264.6. feita segundo

264.7. um espírito genuinamente empírico

264.8. e independentemente

264.9. de qualquer finalidade metafísica.

265. Ao contrário

265.1. do que aconteceu com Platão,

265.2. a visão de Aristóteles

265.3. relativamente à educação superior

265.4. teve um efeito

265.5. extremamente importante

265.6. na estrutura interna

265.7. da comunidade Peripatética.

266. Contrastando com a Academia,

266.1. o Liceu

266.2. vivia mais sob o lema

266.3. de uma cooperativa

266.4. do que de uma relação dialéctica

266.5. entre os diversos membros.

267. O progresso do conhecimento

267.1. era visto no liceu

267.2. como o resultado

267.3. dos vários contributos individuais

267.4. e de tarefas partilhadas

267.5. com efeitos cumulativos.

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268. Aristóteles

268.1. esclarece explicitamente

268.2. em várias obras

268.3. porque é que a relação dialectal

268.4. entre membros de uma comunidade

268.5. não conduz à verdadeira paideia,

268.6. contrastando o procedimento

268.7. que seguiu na sua escola

268.8. com o usado pela Academia.

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269. Nas suas palavras

269.1. (citado em Patrick, 1972):

269.2. "A razão

269.2.1. para a nossa incapacidade

269.2.2. de compreender factos consumados

269.2.3. é a simples falta de experiência,

269.2.4. por essa razão

269.2.5. todos aqueles

269.2.6. que conviveram de perto

269.2.7. com fenómenos naturais

269.2.8. estão melhor preparados

269.2.9. para formular generalizações.

269.2.10. Mas,

269.2.11. aqueles que debatem

269.2.12. em profundidade

269.2.13. e que ignoram os factos

269.2.14. mostram ter uma visão limitada.

269.2.15. Isto testemunha

269.2.16. a diferença entre

269.2.17. aqueles que fazem pesquisa

269.2.18. e aqueles que a fazem dialecticamente".

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270. Na obra

270.1. Segundos Analíticos,

270.2. Aristóteles estabelece

270.3. o mesmo tipo de contraste

270.4. entre a aprendizagem empírica

270.5. e a aprendizagem dialéctica.

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271. Nessa obra,

271.1. Aristóteles fala

271.2. do seu relacionamento

271.3. com membros da Academia,

271.4. especificamente

271.5. com Eudoxo e Platão.

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272. Embora declarando

272.1. hesitar criticar Platão

272.2. devido à sua afeição por ele,

272.3. contínua dizendo

272.4. que, por muito que valorize os amigos,

272.5. valoriza mais a verdade.

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273. Tal como

273.1. a obra

273.2. Sobre a Amizade

273.3. torna claro,

273.4. Aristóteles concebeu

273.5. a relação entre

273.6. os vários membros

273.7. da sua comunidade filosófica

273.8. como uma relação de amizade.

274. Aristóteles acreditava

274.1. que a actividade filosófica cooperativa

274.2. era capaz de conduzir

274.3. ao verdadeiro conhecimento.

275. Os membros

275.1. da escola de Aristóteles

275.2. enveredaram por inúmeras actividades,

275.3. tais como

275.4. a recolha dos registos

275.5. das actuações dramáticas em Atenas,

275.6. da constituição dos vários estados,

275.7. de dados botânicos e zoológicos.

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276. Aristóteles

276.1. recomendava aos seus alunos

276.2. para saírem e procurarem informação

276.3. acerca, por exemplo,

276.4. de caçadores e pescadores

276.5. que tivessem alguma experiência

276.6. no mundo natural.

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277. Aconselhava-os também

277.1. à classificação

277.2. de todo o material recolhido.

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278. Todos estes projectos

278.1. exigiam um tipo de relacionamento

278.2. entre os membros do Liceu

278.3. bastante diferente

278.4. do comportamento exigido

278.5. pelas discussões dialécticas

278.6. levadas a cabo

278.7. na Academia de Platão.

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279. Em termos literários,

279.1. os ideais da escola de Aristóteles

279.2. conduziram a uma produção escrita

279.3. diferente da levada a cabo

279.4. na Academia de Platão.

280. Ingemar Düring

280.1. (citado in Patrick, 1972)

280.2. sumariou as diferenças estilísticas

280.3. de uma forma admirável,

280.4. afirmando que,

280.5. como resultado do trabalho de Aristóteles,

280.6. um "novo modo de expressão,

280.6.1. de prosa científica,

280.6.2. tomou forma".

281. É ainda referido

281.1. que Aristóteles chamou

281.2. aos escritos de Platão

281.3. "um meio termo entre a poesia e a prosa".

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282. A desconfiança de Platão

282.1. em relação à palavra escrita

282.2. era tal

282.3. que ele usava

282.4. uma forma ficcional,

282.5. o diálogo,

282.6. numa tentativa

282.7. de manter vivo

282.8. o tipo de conhecimento

282.9. que acreditava

282.10. só poder ser devidamente adquirido

282.11. através da palavra oral

282.12. e não através dos livros.

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283. Aristóteles

283.1. desenvolveu uma atitude

283.2. diametralmente oposta

283.3. em relação à escrita.

284. Assim se explica

284.1. que Platão se tenha referido

284.2. a Aristóteles

284.3. como "o leitor"

284.4. Porque Aristóteles

284.5. depositou muito mais confiança

284.6. na palavra escrita

284.7. do que Platão,

284.8. acontece que,

284.9. sob a liderança

284.10. de Aristóteles e Teofrasto,

284.11. o Liceu produziu

284.12. uma enorme quantidade de material escrito.

285. As formas

285.1. que muitas dessas produções escritas

285.2. tomaram

285.3. diferiam de tudo

285.4. o que a Academia

285.5. havia produzido até então.

286. O tipo mais característico

286.1. da escrita peripatética

286.2. é o sunagoge

286.3. que consiste

286.4. na compilação sistemática

286.5. de material relacionado

286.6. com um tema.

287. Este tipo de escrita

287.1. era tão distinta

287.2. que quase todos aqueles

287.3. que produziram um sungoge

287.4. durante a idade Helenística

287.5. eram apelidados de Peripatéticos,

287.6. quer tivessem ou não

287.7. alguma coisa a ver

287.8. com a escola.

288. Werner Jaeger

288.1. refere ainda

288.2. outro tipo de escrita Peripatética

288.3. a que chamou

288.4. de "literatura escolar"

288.5. tendo sumariado

288.6. as suas principais características.

288.7. "A pragmateiai de Aristóteles

288.7.1. deve ser entendida

288.7.2. como um tipo

288.7.3. de literatura escolar especial,

288.7.4. escrita sem qualquer ambição literária,

288.7.5. o que não significa

288.7.6. que não tenha qualidade literária.

288.7.7. A pragmateia

288.7.8. consistia num conjunto de notas,

288.7.9. revistas de tempos a tempos

288.7.10. para a actualização

288.7.11. mediante a introdução

288.7.12. de novos resultados

288.7.13. e concretizações.

288.7.14. Elas representavam

288.7.15. uma tradição oral

288.7.16. sob a forma de escrita.

288.7.17. Aristóteles

288.7.18. e os seus companheiros

288.7.19. trabalhavam continuamente

288.7.20. com este material.

288.7.21. As suas contribuições

288.7.22. assumiam a forma

288.7.23. de adições e amplificações".

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289. A desconfiança de Aristóteles

289.1. relativamente à dialéctica

289.2. significou também

289.3. que a sua escola seguiu

289.4. procedimentos educacionais

289.5. diferentes dos procedimentos

289.6. seguidos pela Academia.

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290. De uma forma breve,

290.1. podemos dizer

290.2. que havia mais instrução

290.3. e menos discussão.

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291. Aristóteles

291.1. acreditava

291.2. no valor comunicativo da palavra

291.3. e desenvolveu

291.4. um número de técnicas pedagógicas

291.5. para facilitar

291.6. o processo de instrução.

292. Nas conferências

292.1. fazia uso de diagramas, imagens e tabelas

292.2. para clarificar o que havia sido dito.

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293. Por seu lado

293.1. Platão não acreditava nas exposições públicas

293.2. como procedimento educacional adequado,

293.3. defendendo que a verdadeira educação

293.4. tinha que ser adquirida

293.5. dentro da comunidade escolar.

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294. Ora, este não era o caso de Aristóteles.

295. Não só Aristóteles dava instrução aos alunos da escola,

295.1. à noite,

295.2. como também ensinava publicamente,

295.3. durante a parte da manhã.

296. Esta prática foi continuada por Teofrasto

296.1. e as aulas dadas durante a manhã

296.2. tornaram-se tão populares

296.3. que chegaram a ser assistidas

296.4. por perto de duas mil pessoas.

297. Deste modo, e contrastando com a Academia,

297.1. a exposição foi mais favorecida no Liceu,

297.2. havendo regularmente exposições ou prelecções

297.3. realizadas pelo líder da escola ou outros membros.

298. Muitas diferenças entre as duas escolas

298.1. devem-se ao facto de não existirem pressões externas

298.2. com vista à uniformização destas instituições.

299. Uma vez que não existia tradição relativamente

299.1. ao ensino superior em Atenas,

299.2. a prática institucional dos Gregos era muito fluida

299.3. e o fundador da escola e líderes subsequentes

299.4. tinham pleno poder para fazer

299.5. da sua instituição aquilo que quisessem.

300. Assim, por exemplo no que respeita

300.1. à frequência das duas escolas por mulheres,

300.2. não existe qualquer tradição

300.3. que ligue a mulher com o Peripatos

300.4. embora se saiba que dois membros femininos

300.5. fizeram parte da Academia

300.6. sob liderança de Platão e do seu sucessor.

—————————————

301. Tanto Aristóteles quanto Teofrasto

301.1. desvalorizaram igualmente

301.2. a importância da matemática

301.3. tendo-se concentrado muito mais

301.4. na biologia e ciências naturais.

—————————————

——————–

302. Pelo contrário,

302.1. a matemática constituía a disciplina

302.2. mais importante na Academia,

———————————–

303. Aristóteles defendeu a retórica como disciplina,

303.1. tendo inclusivamente dado, segundo parece,

303.2. instrução neste campo

303.3. durante o tempo que permaneceu na Academia.

————————————–

304. É pois provável que a sua escola

304.1. tenha dado mais ênfase

304.2. ao estudo da retórica

304.3. do que a Academia de Platão.

———————————–

—————————————-

305. Uma outra diferença muito acentuada

305.1. entre a Academia e o Liceu

305.2. tem a ver com a posição ou estatuto de Aristóteles

305.3. na cidade de Atenas.

—————————

—————————————–

306. Aristóteles, ao contrário de Platão,

306.1. não era um cidadão ateniense

306.2. mas um estrangeiro.

————————–

—————————————-

307. Platão por seu lado era descendente

307.1. de uma velha família ateniense muito influente.

——————————————————

————————————————–

308. Tanto Aristóteles como quase todos os membros

308.1. conhecidos da sua escola

308.2. não tinham cidadania ateniense

308.3. e portanto a escola de Aristóteles

308.4. não tinha tanta liberdade

308.5. nem, provavelmente, tão grande inclinação

308.6. para intervir na política ateniense,

308.7. ao contrário do que se passava

308.8. com os membros da Academia de Platão.

——————————————–

309. Nesta ordem de ideias,

309.1. é de referir uma outra diferença profunda:

309.2. o facto do Liceu

309.3. não ter "produzido"

309.4. quase nenhuma figura pública,

309.5. político ou orador,

309.6. apesar de se ter dedicado ao ensino da retórica.

310. Tal facto contrasta nitidamente

310.1. com o que se passou

310.2. com vários discípulos da Academia de Platão

310.3. que encaixaram na perfeição

310.4. em encargos políticos e de liderança.

311. Um dos factores que contribuiu

311.1. para a precariedade da posição

311.2. de Aristóteles em Atenas

311.3. foram as suas inegáveis ligações Macedónicas.

312. Não só nasceu na cidade de Estagira (Macedónia)

312.1. sendo filho do médico da corte,

312.2. como tamém foi professor de Alexandre.

313. Aristóteles tinha, de facto,

313.1. alguma influência

313.2. a nível do poder macedónico

313.3. (como o testemunha o facto

313.3.1. de Alexandre ter procedido

313.3.2. à reconstrução da cidade de Estagira,

313.3.3. destruída por Filipe,

313.3.4. satisfazendo deste modo

313.3.5. um pedido seu)

313.4. mas não era propriamente

313.5. um partidário da prepotência macedónica.

314. Estes contactos

314.1. impediram sempre

314.2. a sua simpatia e adesão

314.3. ao partido popular anti-macedónico,

314.4. liderado em Atenas

314.5. por homens como Demóstenes.

315. A violenta reacção anti-macedónica

315.1. que se deu em Atenas em 348 a.C.,

315.2. pode ter sido um dos motivos

315.3. que influenciou a saída de Aristóteles da Academia,

315.4. depois de vinte anos de permanência.

316. Deste modo,

316.1. quando Aristóteles voltou para Atenas

316.2. em 335 a.C.

316.3. e fundou a sua escola no Liceu,

316.4. as circunstâncias não eram muito favoráveis

316.5. à existência de boas relações

316.6. entre a escola e a cidade.

317. Dado que o partido anti-macedónico em Atenas

317.1. se revelava especialmente hostil para com o Liceu,

317.2. a escola de Aristóteles dependia

317.3. desde o princípio da governação macedónica.

318. Quando a morte súbita de Alexandre

318.1. foi anunciada em Atenas (323 a.C.),

318.2. ocorreu de imediato

318.3. uma manifestação anti-macedónica,

318.4. sendo Aristóteles, obviamente, um alvo a atingir.

319. Uma outra diferença significativa

319.1. entre o Liceu e a Academia

319.2. deve-se ao facto de Aristóteles,

319.3. sendo considerado um não-cidadão ateniense,

319.4. não poder possuir qualquer bem na cidade

319.5. pelo que não deixou qualquer propriedade no seu testamento.

320. É certo que, antes de morrer,

320.1. Aristóteles escolheu Teofrasto

320.2. para ser seu sucessor na escola.

321. Essa vontade testamentária

321.1. poderia explicar o facto

321.2. de Teofrasto ter herdado

321.3. a biblioteca pessoal de Aristóteles.

322. Contudo,

322.1. quando Teofrasto assumiu a liderança do Liceu,

322.2. as instalações consistiam somente

322.3. em terrenos e edifícios públicos,

322.4. isto é, nada comparável

322.5. à propriedade de Platão

322.6. onde se situava a Academia.

———————

::: Academia vs Liceu

———————

::: 1.Semelhanças

::: 2.Diferenças

::: 1.Semelhanças

—————–

323. Tanto a Academia de Platão

323.1. como o Liceu de Aristóteles

323.2. estavam organizadas

323.3. como comunidades complexas e diversificadas

323.4. e não como um simples grupo composto

323.5. pelo professor e pelos alunos.

324. Tanto na Academia como no Liceu

324.1. existiam dois grupos de membros:

324.2. os presbuteroi e os neaniskoi.

325. Ambos eram membros da comunidade

325.1. embora os neaniskoi

325.2. estivessem provavelmente

325.3. mais preocupados com a aprendizagem

325.4. e os presbuteroi estivessem mais preocupados

325.5. com o ensino e a pesquisa.

326. Embora se conheçam poucos detalhes

326.1. acerca da distinção entre estes grupos,

326.2. tanto o Liceu como a Academia

326.3. eram comunidades

326.4. sem hierarquias rigidamente definidas.

327. Em ambas as escolas,

327.1. tanto os jovens como os mais velhos

327.2. não estavam sujeitos

327.3. a qualquer obrigação contratual.

328. Uma das formas mais comuns

328.1. pela qual os membros das escolas

328.2. se referiam uns aos outros

328.3. era através da palavra "companheiros",

328.4. deixando transparecer a ideia

328.5. da existência

328.6. de uma relação informal entre membros.

329. Os membros mais velhos

329.1. de ambas as escolas

329.2. sempre puderam optar

329.3. por ir para outro lugar,

329.4. até mesmo para fundarem

329.5. as suas próprias escolas,

329.6. se assim o desejassem.

330. Como exemplo,

330.1. refira-se Eudemos

330.2. que deixou o Liceu

330.3. no tempo de Teofrasto

330.4. e voltou à sua ilha nativa

330.5. – Rhodes –

330.6. para ensinar.

331. Existem numerosos exemplos de jovens

331.1. que no seu tempo de estudantes

331.2. trocaram uma escola por outra.

332. Bion de Borysthenes, por exemplo,

332.1. desgostado do ensino de Crates na Academia

332.2. foi para o Liceu

332.3. receber os ensinamentos de Teofrasto.

333. A liberdade de pensamento e a independência

333.1. relativamente ao escolarca

333.2. é talvez menor no Liceu

333.3. do que na Academia.

334. Nenhum membro do Liceu

334.1. parece ter sido

334.2. tão intelectualmente independente

334.3. da visão do escolarca

334.4. quanto Eudoxo e o próprio Aristóteles

334.5. o foram de Platão.

335. No entanto,

335.1. o homem escolhido para suceder Aristóteles,

335.2. Teofrasto,

335.3. era um pensador independente.

336. De facto,

336.1. num dos fragmentos que chegaram até nós,

336.2. Teofrasto mostra claramente

336.3. que seguiu por vezes Aristóteles,

336.4. tendo noutras ocasiões

336.5. rejeitado formulações aristotélicas.

337. O facto de Aristóteles

337.1. ter preferido Teofrasto

337.2. para ser seu sucessor

337.3. em vez de Eudemos

337.4. é a prova de que a sua escola

337.5. não era baseada na ortodoxia.

338. A abertura das escolas de Platão e Aristóteles

338.1. em oposição ao fechamento

338.2. da comunidade Pitagórica

338.3. é outra característica comum.

339. Não há referências à existência

339.1. de qualquer tipo de juramentos,

339.2. jejuns ou rituais de iniciação

339.3. que pudessem eventualmente

339.4. estar ligados ao Liceu ou à Academia.

340. Ambas eram espaços públicos e parte integrante da cidade.

341. Em ambas as escolas

341.1. eram aceites pessoas

341.2. independentemente da sua raiz familiar.

342. Demetrios, o ditador de Atenas

342.1. desde 317 até 307 a.C.

342.2. conseguiu frequentar a escola

342.3. apesar da proveniência familiar.

343. Outros estudantes

343.1. cujas condições familiares

343.2. não lhes permitiriam enveredar pelos estudos

343.3. conseguiram fazê-lo

343.4. conciliando a escola com trabalho.

344. Tal como na Academia,

344.1. as portas no Liceu

344.2. não estavam fechadas.

345. Para além da questão financeira

345.1. não existia

345.2. qualquer barreira difícil de ultrapassar.

346. Tanto Platão quanto Aristóteles

346.1. nomearam os seus sucessores

346.2. quanto à liderança das suas escolas.

347. Não se sabe ao certo

347.1. se os membros da Academia

347.2. realizaram ou não uma eleição

347.3. depois da morte de Platão.

348. Quando Speusipo,

348.1. o sucessor escolhido por Platão

348.2. estava quase a morrer,

348.3. pediu a Xenócrates

348.4. para tomar conta da escola.

349. De facto Xenócrates

349.1. assumiu a liderança da Academia,

349.2. mas tal só aconteceu

349.3. depois da realização de uma eleição

349.4. que ganhou por uma escassa maioria.

350. Também Aristóteles

350.1. – antes da sua morte em Cálcis –

350.2. expressou a sua preferência por Teofrasto

350.3. em detrimento de Eudemos

350.4. e os seus seguidores aceitaram a sua decisão.

351. Uma outra ideia organizacional

351.1. que Aristóteles usou

351.2. à semelhança da Academia

351.3. foi a eleição de um membro

351.4. para o cargo de archon.

352. Esta prática foi talvez introduzida

352.1. para que os trabalhos de rotina administrativa

352.2. ligados à escola

352.3. fossem partilhados pelos varios membros.

353. O uso das eleições para a escolha dos líderes

353.1. sugere que tanto a Academia como o Liceu

353.2. eram geridos por um tipo de democracia partilhada.

354. Foi Xenócrates, e não Platão,

354.1. o responsável por esta inovação organizacional na Academia.

355. Tal como Platão,

355.1. parece que Aristóteles

355.2. não estabeleceu qualquer propina

355.3. relativamente aos seus ensinamentos.

356. Já o sucessor de Platão,

356.1. foi censurado

356.2. por ter introduzido encargos

356.3. relativos à educação na Academia.

357. Quanto ao financiamento de ambas as escolas

357.1. pouco se sabe.

358. Platão aceitou algumas recompensas em dinheiro

358.1. de Dion e Dionísio.

359. Existem também provas

359.1. de que Alexandre o Grande

359.2. daria algum dinheiro

359.3. para a escola de Aristóteles,

359.4. o que constitui um dos meios

359.5. de que Aristóteles dispunha

359.6. para levar a cabo

359.7. um trabalho mais elaborado

359.8. a nível da pesquisa.

360. O tipo de trabalho efectuado no Liceu

360.1. exigia indubitavelmente

360.2. mais recursos financeiros

360.3. do que as actividades desenvolvidas na Academia.

361. Mas, e à semelhança de Platão,

361.1. a fortuna familiar deve ter sido

361.2. a principal fonte económica de Aristóteles.

362. Uma vez que ele era filho de um médico

362.1. pertencente à corte da Macedónia,

362.2. conseguiu auto sustentar-se

362.3. durante os vinte anos que passou na Academia,

362.4. o que atesta que Aristóteles

362.5. sempre teve uma boa posição financeira.

::: 2.Diferenças

—————-

363. semelhanças entre a Academia e o Liceu eram profundas.

364. Mas seria injusto concluir

364.1. que estas eram instituições idênticas.

365. Durante o tempo de permanência

365.1. de Aristóteles na Academia

365.2. eram já visíveis as divergências

365.3. entre Aristóteles e Platão.

366. Contudo,

366.1. e apesar do tempo que passou

366.2. na companhia dos académicos,

366.3. Aristóteles sempre se evidenciou

366.4. como um homem intelectualmente independente.

367. Tudo aponta para a conclusão

367.1. de que o Liceu representa

367.2. uma nova faceta

367.3. da educação de Atenas.

368. Düring (citado por Patrick, 1972)

368.1. resumiu muito bem

368.2. as novas e marcantes

368.3. características desta escola:

369. "Aristóteles criou algo de novo

369.1. com a sua escola.

369.2. Uma recolha sistemática

369.3. da literatura previamente produzida,

369.4. a qual foi inteiramente trabalhada.

369.5. Uma vasta e sistemática

369.6. recolha de informação e material

369.7. para certos propósitos,

369.8. por forma a tornar possível

369.9. uma visão geral

369.10. sobre todo um campo de conhecimento.

369.11. Estreita cooperação

369.12. entre o líder da escola

369.13. e os seus seguidores.

369.14. E, finalmente,

369.15. e mais importante que tudo

369.16. o uso de um método de trabalho

369.17. estritamente científico".

370. Há quem defenda

370.1. que as raízes desse desenvolvimento

370.2. se encontravam já na Academia.

371. No entanto,

371.1. nenhum membro da Academia

371.2. anterior a Aristóteles

371.3. parece ter defendido

371.4. uma classificação sistemática dos seres

371.5. feita segundo um espírito

371.6. genuinamente empírico e independentemente

371.7. de qualquer finalidade metafísica.

372. Ao contrário do que aconteceu com Platão,

372.1. a visão de Aristóteles

372.2. relativamente à educação superior

372.3. teve um efeito extremamente importante

372.4. na estrutura interna

372.5. da comunidade Peripatética.

373. Contrastando com a Academia,

373.1. o Liceu vivia mais sob o lema

373.2. de uma cooperativa

373.3. do que de uma relação dialéctica

373.4. entre os diversos membros.

374. O progresso do conhecimento

374.1. era visto no liceu

374.2. como o resultado

374.3. dos vários contributos individuais

374.4. e de tarefas partilhadas

374.5. com efeitos cumulativos.

—————————————–

375. Aristóteles esclarece explicitamente

375.1. em várias obras

375.2. por que é que a relação dialectal

375.3. entre membros de uma comunidade

375.4. não conduz à verdadeira paideia,

375.5. contrastando o procedimento

375.6. que seguiu na sua escola

375.7. com o usado pela Academia.

———————————

376. Nas suas palavras (citado em Patrick, 1972):

—————————————

377. "A razão para a nossa incapacidade

377.1. de compreender factos consumados

377.2. é a simples falta de experiência,

377.3. por essa razão

377.4. todos aqueles que conviveram de perto

377.5. com fenómenos naturais

377.6. estão melhor preparados

377.7. para formular generalizações.

377.8. Mas, aqueles que debatem em profundidade

377.9. e que ignoram os factos

377.10. mostram ter uma visão limitada.

377.11. Isto testemunha a diferença

377.12. entre aqueles que fazem pesquisa

377.13. e aqueles que a fazem dialecticamente".

———————————————–

378. Na obra Segundos Analíticos,

378.1. Aristóteles estabelece

378.2. o mesmo tipo de contraste

378.3. entre a aprendizagem empírica

378.4. e a aprendizagem dialéctica.

379. Nessa obra,

379.1. Aristóteles fala

379.2. do seu relacionamento

379.3. com membros da Academia,

379.4. especificamente com Eudoxo e Platão.

380. Embora declarando

380.1. hesitar criticar Platão

380.2. devido à sua afeição por ele,

380.3. contínua dizendo que,

380.4. por muito que valorize os amigos,

380.5. valoriza mais a verdade.

381. Tal como a obra

381.1. Sobre a Amizade

381.2. torna claro,

381.3. Aristóteles concebeu

381.4. a relação entre os vários membros

381.5. da sua comunidade filosófica

381.6. como uma relação de amizade.

382. Aristóteles acreditava

382.1. que a actividade filosófica cooperativa

382.2. era capaz de conduzir

382.3. ao verdadeiro conhecimento.

383. Os membros da escola de Aristóteles

383.1. enveredaram por inúmeras actividades,

383.2. tais como a recolha dos registos

383.3. das actuações dramáticas em Atenas,

383.4. da constituição dos vários estados,

383.5. de dados botânicos e zoológicos.

384. Aristóteles recomendava aos seus alunos

384.1. para saírem e procurarem

384.2. informação acerca, por exemplo,

384.3. de caçadores e pescadores

384.4. que tivessem alguma experiência

384.5. no mundo natural.

385. Aconselhava-os também

385.1. à classificação

385.2. de todo o material recolhido.

386. Todos estes projectos

386.1. exigiam um tipo de relacionamento

386.2. entre os membros do Liceu

386.3. bastante diferente

386.4. do comportamento exigido

386.5. pelas discussões dialécticas

386.6. levadas a cabo

386.7. na Academia de Platão.

387. Em termos literários,

387.1. os ideais da escola de Aristóteles

387.2. conduziram a uma produção escrita

387.3. diferente da levada a cabo

387.4. na Academia de Platão.

388. Ingemar Düring

388.1. (citado in Patrick, 1972)

388.2. sumariou as diferenças estilísticas

388.3. de uma forma admirável,

388.4. afirmando que,

388.5. como resultado do trabalho de Aristóteles,

388.6. um "novo modo de expressão,

388.6.1. de prosa científica,

388.6.2. tomou forma".

389. É ainda referido

389.1. que Aristóteles chamou

389.2. aos escritos de Platão

389.3. "um meio termo

389.3.1. entre a poesia e a prosa".

—————————–

390. A desconfiança de Platão

390.1. em relação à palavra escrita

390.2. era tal

390.3. que ele usava uma forma ficcional,

390.4. o diálogo,

390.5. numa tentativa de manter vivo

390.6. o tipo de conhecimento

390.7. que acreditava

390.8. só poder ser devidamente adquirido

390.9. através da palavra oral

390.10. e não através dos livros.

———————————

391. Aristóteles desenvolveu

391.1. uma atitude diametralmente oposta

391.2. em relação à escrita.

392. Assim se explica

392.1. que Platão

392.2. se tenha referido a Aristóteles

392.3. como "o leitor"

393. Porque Aristóteles

393.1. depositou muito mais confiança

393.2. na palavra escrita

393.3. do que Platão,

393.4. acontece que,

393.5. sob a liderança de Aristóteles e Teofrasto,

393.6. o Liceu produziu

393.7. uma enorme quantidade

393.8. de material escrito.

394. As formas

394.1. que muitas dessas produções escritas

394.2. tomaram

394.3. diferiam

394.4. de tudo o que a Academia

394.5. havia produzido até então.

395. O tipo mais característico

395.1. da escrita peripatética

395.2. é o sunagoge

395.3. que consiste

395.4. na compilação sistemática

395.5. de material

395.6. relacionado com um tema.

396. Este tipo de escrita

396.1. era tão distinta

396.2. que quase todos aqueles

396.3. que produziram um sungoge

396.4. durante a idade Helenística

396.5. eram apelidados

396.6. de Peripatéticos,

396.7. quer tivessem ou não

396.8. alguma coisa a ver

396.9. com a escola.

397. Werner Jaeger

397.1. refere ainda

397.2. outro tipo de escrita

397.3. Peripatética

397.4. a que chamou de

397.5. "literatura escolar"

397.6. tendo sumariado

397.7. as suas principais características.

397.7.1. "A pragmateiai de Aristóteles

397.7.2. deve ser entendida

397.7.3. como um tipo de literatura escolar especial,

397.7.4. escrita sem qualquer ambição literária,

397.7.5. o que não significa

397.7.6. que não tenha qualidade literária.

397.7.7. A pragmateia consistia

397.7.7.1. num conjunto de notas,

397.7.7.2. revistas de tempos a tempos

397.7.7.3. para a actualização

397.7.7.4. mediante a introdução

397.7.7.5. de novos resultados e concretizações.

397.7.8. Elas representavam uma tradição oral

397.7.8.1. sob a forma de escrita.

397.7.9. Aristóteles e os seus companheiros

397.7.9.1. trabalhavam continuamente

397.7.9.2. com este material.

397.7.10. As suas contribuições

397.7.10.1. assumiam a forma

397.7.10.2. de adições e amplificações".

398. A desconfiança de Aristóteles

398.1. relativamente à dialéctica

398.2. significou também que

398.3. a sua escola seguiu

398.4. procedimentos educacionais diferentes

398.5. dos procedimentos seguidos pela Academia,

398.6. de uma forma breve,

398.7. podemos dizer que

398.8. havia mais instrução

398.9. e menos discussão.

399. Aristóteles acreditava

399.1. no valor comunicativo

399.2. da palavra

399.3. e desenvolveu

399.4. um número de técnicas pedagógicas

399.5. para facilitar

399.6. o processo de instrução.

400. Nas conferências

400.1. fazia uso de diagramas,

400.2. imagens

400.3. e tabelas

400.4. para clarificar

400.5. o que havia sido dito.

401. Por seu lado

401.1. Platão não acreditava

401.2. nas exposições públicas

401.3. como procedimento educacional adequado,

401.4. defendendo que

401.5. a verdadeira educação

401.6. tinha que ser adquirida

401.7. dentro da comunidade escolar.

402. Ora,

402.1. este não era o caso

402.2. de Aristóteles.

403. Não só Aristóteles

403.1. dava instrução aos alunos

403.2. da escola,

403.3. à noite,

403.4. como também

403.5. ensinava publicamente,

403.6. durante a parte da manhã.

404. Esta prática

404.1. foi continuada

404.2. por Teofrasto

404.3. e as aulas dadas

404.4. durante a manhã

404.5. tornaram-se tão populares

404.6. que chegaram a ser assistidas

404.7. por perto de duas mil pessoas.

405. Deste modo,

405.1. e contrastando com a Academia,

405.2. a exposição

405.3. foi mais favorecida no Liceu,

405.4. havendo regularmente

405.5. exposições ou prelecções

405.6. realizadas pelo líder da escola

405.7. ou outros membros.

406. Muitas diferenças

406.1. entre as duas escolas

406.2. devem-se ao facto

406.3. de não existirem

406.4. pressões externas

406.5. com vista à uniformização

406.6. destas instituições.

407. Uma vez que

407.1. não existia tradição

407.2. relativamente

407.3. ao ensino superior em Atenas,

407.4. a prática institucional

407.5. dos Gregos

407.6. era muito fluida

407.7. e o fundador da escola

407.8. e líderes subsequentes

407.9. tinham pleno poder

407.10. para fazer da sua instituição

407.11. aquilo que quisessem.

408. Assim,

408.1. por exemplo

408.2. no que respeita

408.3. à frequência

408.4. das duas escolas

408.5. por mulheres,

408.6. não existe qualquer tradição

408.7. que ligue a mulher

408.8. com o Peripatos

408.9. embora se saiba que

408.10. dois membros femininos

408.11. fizeram parte da Academia

408.12. sob liderança de Platão

408.13. e do seu sucessor.

409. Tanto Aristóteles

409.1. quanto Teofrasto

409.2. desvalorizaram igualmente

409.3. a importância da matemática

409.4. tendo-se concentrado muito mais

409.5. na biologia e ciências naturais.

410. Pelo contrário,

410.1. a matemática constituía

410.2. a disciplina mais importante

410.3. na Academia.

411. Aristóteles

411.1. defendeu a retórica

411.2. como disciplina,

411.3. tendo inclusivamente dado,

411.4. segundo parece,

411.5. instrução neste campo

411.6. durante o tempo

411.7. que permaneceu na Academia.

412. É pois provável

412.1. que a sua escola

412.2. tenha dado mais ênfase

412.3. ao estudo da retórica

412.4. do que a Academia de Platão.

413. Uma outra diferença

413.1. muito acentuada

413.2. entre a Academia e o Liceu

413.3. tem a ver

413.4. com a posição ou estatuto

413.5. de Aristóteles

413.6. na cidade de Atenas.

414. Aristóteles,

414.1. ao contrário de Platão,

414.2. não era um cidadão ateniense

414.3. mas um estrangeiro.

415. Platão por seu lado

415.1. era descendente

415.2. de uma velha família ateniense

415.3. muito influente.

416. Tanto Aristóteles

416.1. como quase todos

416.2. os membros conhecidos

416.3. da sua escola

416.4. não tinham cidadania ateniense

416.5. e portanto

416.6. a escola de Aristóteles

416.7. não tinha tanta liberdade

416.8. nem, provavelmente,

416.9. tão grande inclinação

416.10. para intervir

416.11. na política ateniense,

416.12. ao contrário do que se passava

416.13. com os membros

416.14. da Academia de Platão.

417. Nesta ordem de ideias,

417.1. é de referir

417.2. uma outra diferença profunda:

417.3. o facto do Liceu

417.4. não ter "produzido"

417.5. quase nenhuma

417.5.1. figura pública,

417.5.2. político

417.5.3. ou orador,

417.6. apesar de se ter dedicado

417.7. ao ensino da retórica.

418. Tal facto

418.1. contrasta nitidamente

418.2. com o que se passou

418.3. com vários discípulos

418.4. da Academia de Platão

418.5. que encaixaram

418.6. na perfeição

418.7. em encargos políticos

418.8. e de liderança.

419. Um dos factores

419.1. que contribuiu

419.2. para a precariedade

419.3. da posição de Aristóteles

419.4. em Atenas

419.5. foram as suas inegáveis

419.6. ligações Macedónicas.

420. Não só nasceu

420.1. na cidade de Estagira

420.2. (Macedónia)

420.3. sendo filho do médico da corte,

420.4. como tamém

420.5. foi professor de Alexandre.

421. Aristóteles

421.1. tinha, de facto,

421.2. alguma influência

421.3. a nível do poder macedónico

421.4. (como o testemunha o facto

421.4.1. de Alexandre ter procedido

421.4.2. à reconstrução da cidade de Estagira,

421.4.3. destruída por Filipe,

421.4.4. satisfazendo deste modo

421.4.5. um pedido seu)

421.5. mas não era propriamente

421.6. um partidário

421.7. da prepotência macedónica.

422. Estes contactos

422.1. impediram sempre

422.2. a sua simpatia

422.3. e adesão

422.4. ao partido popular anti-macedónico,

422.5. liderado em Atenas

422.6. por homens como Demóstenes.

423. A violenta reacção

423.1. anti-macedónica

423.2. que se deu em Atenas

423.3. em 348 a.C.,

423.4. pode ter sido

423.5. um dos motivos

423.6. que influenciou

423.7. a saída de Aristóteles

423.8. da Academia,

423.9. depois de vinte anos

423.10. de permanência.

424. Deste modo,

424.1. quando Aristóteles

424.2. voltou para Atenas

424.3. em 335 a.C.

424.4. e fundou a sua escola

424.5. no Liceu,

424.6. as circunstâncias

424.7. não eram muito favoráveis

424.8. à existência

424.9. de boas relações

424.10. entre a escola e a cidade.

425. Dado que

425.1. o partido anti-macedónico

425.2. em Atenas

425.3. se revelava

425.4. especialmente hostil

425.5. para com o Liceu,

425.6. a escola de Aristóteles

425.7. dependia desde o princípio

425.8. da governação macedónica.

426. Quando a morte súbita

426.1. de Alexandre

426.2. foi anunciada em Atenas (323 a.C.),

426.3. ocorreu de imediato

426.4. uma manifestação anti-macedónica,

426.5. sendo Aristóteles,

426.6. obviamente,

426.7. um alvo a atingir.

427. Uma outra diferença

427.1. significativa

427.2. entre o Liceu e a Academia

427.3. deve-se ao facto

427.4. de Aristóteles,

427.5. sendo considerado

427.6. um não-cidadão ateniense,

427.7. não poder possuir

427.8. qualquer bem

427.9. na cidade

427.10. pelo que

427.11. não deixou

427.12. qualquer propriedade

427.13. no seu testamento.

428. É certo que,

428.1. antes de morrer,

428.2. Aristóteles escolheu Teofrasto

428.3. para ser seu sucessor na escola.

429. Essa vontade testamentária

429.1. poderia explicar

429.2. o facto de Teofrasto

429.3. ter herdado

429.4. a biblioteca pessoal

429.5. de Aristóteles.

430. Contudo,

430.1. quando Teofrasto

430.2. assumiu a liderança do Liceu,

430.3. as instalações

430.4. consistiam somente

430.5. em terrenos e edifícios públicos,

430.6. isto é,

430.7. nada comparável

430.8. à propriedade de Platão

430.9. onde se situava a Academia.

 

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